E aí pessoal, tudo certo? Esse post acabou demorando um pouco mais que o esperado para sair, mas agora vamos recuperar esse tempo perdido. Primeiramente, quero agradecer ao pessoal que vêm visitando o blog, o número de visitas vem crescendo razoavelmente, isso dá a impressão de que a) alguém achou interessante, ou b) as pessoas andam meio sem ter o que fazer. Enfim, vamos começar.
Já que o último texto foi sobre produção, gravação e coisas do tipo, acho que é interessante falar sobre um tema que é parte integrante da música em geral. A coisa importante a ser notada é:
O som que uma banda tem fala muito a respeito da sua identidade.
Ok, parece uma coisa meio óbvia, mas exatamente por estar muito na cara, às vezes as pessoas deixam esse detalhe passar batido: acho que o pessoal que tem banda ou pensa em ter uma deveria pensar muito a respeito disso, e vou mostrar alguns exemplos de como isso acaba tornando-se algo importante com o passar do tempo.
No início da década de 1980, aconteceu o "boom" da NWOBHM, a New Wave of British Heavy Metal. Haviam muitas bandas que possuíam características sonoras parecidas: Iron Maiden, Saxon, Judas Priest, entre outras. Embora amadas no underground, muitas delas acabaram caindo no esquecimento, e outras (como as que acabei de citar ) foram reconhecidas e mantém carreira estável até hoje. De certa maneira, quando surge um estilo, aparecem algumas bandas que conseguem mostrar suas raízes e ao mesmo tempo adicionar elementos novos: as que simplesmente copiam características do estilo em si, normalmente acabam estagnando sua carreira em algum lugar. Não quero dizer que todas as bandas deveriam alcançar um nível fora do comum, com shows lotados em estádios e etc, mas buscar uma cara própria dentro do seu estilo é algo que deveria ser procurado.
Continuando com a NWOBHM: dentre todas as bandas, houve uma que soube usar muito bem essa questão de identidade e produção pra se destacar das demais. Trata-se de um trio formado por três carinhas muito feios, que decidiram utilizar pseudônimos ao invés de seus nomes próprios, ou nomes artísticos comuns. Sim meus caros, refiro-me a Cronos, Mantas e Abbadon, do Venom. eles faziam praticamente tudo igual às outras bandas: influência do punk misturado ao "heavy metal" (led zeppelin, deep purple), solos de guitarra, e a vontade de soar pesado. As diferenças começam quando Cronos, numa entrevista, diz que o que eles praticavam era, na verdade, black metal, e não heavy metal.
Ok, além dele usar um rótulo que distanciava sua banda das demais, Cronos também trabalhava em estúdio, e viu a maioria das bandas da NWOBHM gravarem seu material. Outra grande diferença foi a de sujar muito mais seu som. Assim, o Venom construiu pra si a imagem de ser mais sujo, feio e mais malvado que qualquer outra banda que estivesse por ali na época. Muita gente achou palhaçada, mas muita gente concordou, e o resultado é que a maioria das bandas mais pesadas que vieram depois citam Venom como influência.
Indo um pouco mais pra frente na linha do tempo, a gente tem um estilo inteiro que é definido por guitarras em tons graves, um baixo que normalmente não é ouvido (e quando dá pra ouvir, é porque o baixista toca pra diabo), e com muitas notas na bateria... Muitas notas mesmo. Isso mesmo, death metal.
Podemos dizer que o primeiro padrão de produção dentro do death metal surgiu a partir do estúdio Morrisound, na Flórida. Morbid Angel, Obituary e Death foram algumas das pioneiras em gravar por lá.
Nessa parte da história o Brasil entra, via Sepultura e seu disco Beneath the remains. A gravadora Roadrunner records havia gostado do som do Sepultura (juntamente com boa parte do underground mundial), e decidiu fechar um contrato com eles. A gravação de um disco com padrão de produção internacional era importante para a gravadora ter um disco bom para trabalhar em cima, e para a banda se firmar como potência. Então, o produtor Scott Burns, que trabalhava no estúdio Morrisound veio para o Brasil. Resultado: diversas bandas citam Beneath The Remains" como um disco que foi guia para a produção de seus próprios álbuns, como o Cannibal Corpse com seu debut Eaten back to life e o Napalm Death com o Harmony Corruption, pra citar os mais "fraquinhos".
Na contra-mão do som de death metal da Flórida, surge o black metal escandinavo, que faz questão de fazer exatamente o contrário: ter uma qualidade de som "ruim", guitarras mais estridentes e uma produção que soa muito mais crua. Ah sim, além dos primeiros trabalhos do sepultura, eles são muito influenciados pelo Sarcófago.
Transilvanian hunger do Darkthrone é um disco que serve muito bem pra exemplificar essa visão.
O assunto não acaba por aí, mas com base nisso tudo é possível notar que o jeito que o disco de uma banda soa tem a ver com diversos fatores, como referências dos caras envolvidos na gravação, qual a idéia que a banda pretende passar com as suas músicas, equipamento disponível, carga de conhecimento que os envolvidos possuem, o quão complexa é música (bandas com composições muito técnicas acabam tendo que limpar um pouco a produção, como o caso do Necrophagist) a além do fator caos, que sempre aparece em maior ou menor medida em alguma gravação, escondido nos detalhes que não foram levados em consideração.
No fim das contas, depois de ver tudo isso, você pensa "mas como diabos eu preciso gravar pra estar de acordo com determinado estilo" ou então "como eu vou saber o que é certo nesse estilo? ". A parte legal da música é exatamente essa: não existe uma definição de "certo" ou "bonito" . O que é legal pra uma banda pode ser uma bosta pra outra, o mesmo para as pessoas que ouvem a música.
O próximo post não será sobre gravação, vou tentar falar sobre bandas ao vivo ou qualquer outra coisa que venha à cabeça: se alguém tiver alguma sugestão, fique à vontade pra entrar em contato através de f.augustus@gmail.com
Até mais